Hoje é o Dia dos Santos Reis...

No calendário, o Dia dos Santos Reis cai em 6 de janeiro. Mas, na vida da gente, ele acontece quando a esperança decide sair de casa.

Sempre achei bonito esse detalhe: os Reis Magos não eram pobres nem ignorantes. Tinham conforto, saber, prestígio. Podiam ter ficado onde estavam, protegidos pela rotina e pela certeza de que o mundo já estava explicado. Mas algo incomodou. Uma pergunta simples e perigosa: onde está o menino? E uma estrela, dessas que não gritam, só insistem.

Talvez seja isso que mais me toca nessa história antiga. A fé como inquietação. O sonho como resistência. Porque Belchior, Gaspar e Baltazar atravessaram desertos não por obrigação, mas por desejo. Quando Herodes - esse nome que muda de rosto a cada tempo - tentou governar pelo medo, eles seguiram outro caminho. Não negociaram o sonho. Não ajoelharam diante do poder armado. Ajoelharam diante de uma criança pobre, numa casa simples, cercada de afeto e silêncio.

Ouro, incenso e mirra. Realeza, divindade e humanidade. Sempre pensei que esses presentes também dizem da gente. A realeza que é dignidade. O incenso que é o que nos eleva. A mirra que lembra que somos frágeis, finitos, humanos demais. Política boa, fé verdadeira e vida honesta talvez sejam isso: não negar nenhuma dessas dimensões.

Aqui no Brasil, os Reis não ficam só na Bíblia. Eles cantam. Batem palma. Andam de porta em porta com bandeiras coloridas, sanfona, pandeiro e verso improvisado. A Folia de Reis é teologia popular: anuncia que Deus não se esconde em palácios, mas aceita café coado, bolo de fubá e conversa no terreiro. É Igreja em saída antes mesmo da expressão virar moda. É povo ensinando que fé também dança.

Quando o dia 6 chega, desmonta-se o presépio. Guardam-se as luzes. A árvore volta a ser caixa. Mas, no fundo, o Natal só termina se a gente deixar. Porque a estrela não se apaga no calendário. Ela continua ali, perguntando baixinho se ainda somos capazes de sair do lugar, de enfrentar nossos Herodes cotidianos, de seguir um sonho que não cabe no bolso nem no discurso fácil.

Talvez o Dia dos Santos Reis seja isso: um convite anual para lembrar que o mundo só muda quando alguém se levanta, olha pro céu — mesmo nublado — e decide caminhar. O que importa, no fim, é o sonho.

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