Onde o sonho tem cheiro de mar

O Janga "das lembranças"
Tem dias em que acordo com gosto de sal na memória. Não é metáfora bonita, não. É lembrança mesmo, dessas que a gente sente na boca como se tivesse acabado de mergulhar. Quando isso acontece, sei que o menino do Janga resolveu me visitar. 

E o que fez acordar com esse gosto de sal, foi um filme que assisti, com Denise Fraga: Livros Restantes. O filme explora temas como memória, luto e recomeços. E se passa numa praia que a personagem cresceu. E a minha praia surgiu na lembrança.

Aprendi a nadar na frente das caiçaras dos pescadores, com aquele medo respeitoso que só o mar ensina. O mar nunca foi cenário pra mim, sempre foi professor. Foi ele quem me ensinou a cair e levantar, a tomar caldo, a rir depois, a entender que a onda vem forte mas passa. Talvez por isso eu nunca tenha acreditado muito em derrotas definitivas.

As piscinas naturais em frente à casa do Cônego Miguel eram nosso Caribe particular. A gente mergulhava como se fosse explorador de outro planeta. Peixinho virava tesouro, pedra virava castelo, e o tempo… o tempo virava uma coisa que não mandava na gente.

De manhã cedo, antes do mundo lembrar que existia, eu caminhava até perto da padaria de Pierre só pra ver os pescadores puxando a rede de arrasto. Aquilo era uma aula de política sem discurso: trabalho coletivo, divisão justa, cuidado com o pequeno - os peixes miúdos voltavam pro mar. Ali aprendi que futuro é aquilo que a gente devolve vivo.

Pesquei em todo canto: na ponte do Janga, no dique de Rio Doce, no mangue catando caranguejo com a lama até o joelho e a dignidade intacta. Era uma geografia afetiva: cada ponto tinha uma história, cada anzol tinha uma esperança.

Na rua do Giuseppe Sarto tinha campeonato mundial de garrafão — com arbitragem inexistente e regras flexíveis conforme a amizade. Tinha ladrão e polícia, tinha pelada na beira do mar com trave de chinelo e torcida de vento. E tinha o clássico esporte olímpico de pegar jacaré nas ondas, às vezes até com o caiaque de Paulinho, Bebeto e Felipe, que era nossa prancha improvisada e nossa ideia fixa de liberdade.

O Havaizinho, na Enseadinha do Janga, era nossa pipeline. Ficar olhando os meninos surfando ali ou na frente do Portal era como assistir a um futuro possível: a coragem em pé sobre a água.

Nos finais de semana, o bar de Dona Iva virava Maracanã de sinuca. Ali aprendi que perder também é um jeito de pertencer. O primeiro passeio de barco na jangada do pai de Horacinho foi minha estreia na sensação de que o mundo era maior do que a areia. Mas ainda era nosso.

Teve também meu primeiro porre, depois de um sábado de simulado pro vestibular. Fui “curar” vendo a lua nascer no paredão do Padre. Descobri ali que a juventude é uma mistura de erro, poesia e ressaca.

E as pescarias noturnas… o céu tinha mais estrelas naquele tempo. Ou talvez a gente tivesse mais tempo pra olhar pra cima. Tia Lourdes avisava quando as tartarugas vinham desovar em frente ao bar. A gente ficava em silêncio, como se estivesse diante de um milagre que não precisava de plateia.

Depois vieram as mudanças. O mar avançou, as ruas mudaram, o concreto chegou com pressa. A Enseadinha e o Janga ficaram mais adultos. Como eu. Algumas coisas desapareceram, outras resistiram, e muitas viraram memória, que é o jeito que o tempo encontra de não perder tudo.

Hoje entendo que não fui eu que cresci longe do Janga. Foi o Janga que cresceu dentro de mim. Sou feito de rede de arrasto e peixe devolvido, de lama de mangue e sal de piscina natural, de garrafão na rua e luar no paredão, de jacaré na onda e sonho teimoso.

E, mais uma vez, o que importa é o sonho. E o meu sempre teve cheiro de mar.

A política que eu acredito nasceu ali: coletiva como puxar rede, paciente como pescaria de ponte, ética como soltar o peixe pequeno, esperançosa como tartaruga voltando todo ano. A praia me ensinou que transformação é maré: às vezes recua, às vezes avança, mas nunca deixa de ser movimento.

Eu sou um pedaço daquela areia. E, se um dia me perder de mim, sei exatamente onde me encontrar: no Janga, correndo descalço atrás de uma onda que ainda não chegou. 

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