Tem uma coisa curiosa sobre o tempo: ele não passa, ele fica. Fica na gente, nos gestos, nas escolhas, nas teimosias que a gente carrega como quem não abre mão de um pedaço de si.
Às vésperas de mais um aniversário, eu entro nesse lugar
meio silencioso, quase um intervalo entre o que fui e o que ainda insisto em
ser. É quando a vida deixa de ser só pressa e vira pergunta. E eu me pego ali,
revisitando caminhos, tentando entender se honrei aquele acordo antigo que fiz
comigo mesmo: crescer sem abandonar os sonhos.
Lembro de um texto antigo meu, quase um bilhete para o
futuro, em que eu dizia: “Vou crescer e continuar acreditando nos sonhos.
Não vou ser um adulto chato, rancoroso…” E, olha… crescer, eu cresci. Mas
confesso: às vezes o mundo cobra caro por quem insiste em não endurecer.
E cobra mesmo.
Porque a vida vai ensinando na marra que nem todo mundo quer
mudar o mundo - alguns só querem um
lugar confortável nele. E aí vem o cansaço, a dúvida, aquela vontade de sentar
na calçada da própria história e perguntar: valeu a pena?
Mas aí, no meio dessa reflexão toda, aparece ele.
O menino.
O mesmo que fazia política de calça curta, que acreditava
que saliva e exemplo eram suficientes pra transformar realidade. O mesmo que
corria sem pressa, que sonhava sem pedir licença, que desenhava o mundo do
jeito que queria. E ainda achava pouco.
E é impossível não lembrar de Santanna, quando ele canta
aquilo que parece que foi escrito pra esse exato momento da vida:
“Minha saudade tem tanta saudade
Que tô sentindo saudade de mim.”
E é isso.
Uma saudade daquilo que a gente era quando ainda não sabia o
peso das coisas, mas já carregava o essencial: o sonho.
Saudade do tempo em que levantar cedo era só pra viver mais
o dia, não pra dar conta dele. Quando o mundo era grande, mas cabia inteiro
dentro da gente. Quando a gente sorria sem estratégia e acreditava sem cálculo.
E talvez o mais bonito — e o mais difícil — seja perceber
que tudo o que fui está aqui. Cada amizade, cada erro, cada tentativa de
acertar, cada luta meio perdida, cada vitória silenciosa… tudo isso construiu
esse sujeito que agora olha pra trás não com arrependimento, mas com
responsabilidade.
Porque o ontem não é peso. É raiz.
E o que eu fiz com ele… me fez.
Hoje eu sei que não sou mais aquele menino. Mas também sei
que nunca deixei ele ir embora. Ele só mudou de lugar. Saiu da superfície e foi
morar mais fundo, onde as decisões são tomadas e onde os sonhos, mesmo
cansados, continuam respirando.
E talvez envelhecer seja isso: aprender a escutar esse
menino quando o mundo tenta silenciar.
Porque no fim das contas, entre boletos, batalhas e
desencantos, ainda existe uma escolha muito simples e muito difícil:
Continuar.
Continuar acreditando. Continuar sonhando. Continuar
tentando ser ponte num mundo que insiste em ser muro.
Porque, no fundo, eu sigo achando (como achava lá atrás) que
o que importa é o sonho.
E se, de vez em quando, bate essa saudade de mim… talvez
seja só o menino chamando, lembrando que ainda dá tempo de viver com um pouco
mais de coragem e um pouco menos de pressa.
E eu vou.
Mesmo pensativo. Mesmo cansado às vezes. Mas inteiro.
Porque desistir nunca combinou comigo.
E, cá entre nós, leitor@s desse nosso Diálogo,… ainda não combina.
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