Ando com um aperreio atravessado no juízo. Daqueles que não deixam a gente cochilar direito nem na rede da tarde. É a sensação de que o sotaque pernambucano - esse bicho arretado, vivo, cheio de música e malícia - anda se perdendo no meio do caminho, escorrendo pelos dedos das novas gerações como areia fina das praias do nosso litoral.
Escuto menino e menina falando bonito, mas falando estranho. Um português meio plastificado, sem sal, sem coentro, sem o “visse?” no fim da frase pra confirmar afeto. Tudo muito correto, muito “ok”, muito “tipo assim”, muito igual ao que vem do tal "sul-maravilha". Parece que estão sendo programados. Robotizados. Como se o algoritmo tivesse decidido que nosso jeito de falar é defeito, não patrimônio.
E isso dói. Dói porque língua não é só ferramenta de comunicação. É memória. É pertencimento. É política também. Nosso sotaque carrega a história de um povo que resistiu à seca, ao descaso, às elites do centro sul do país que sempre acharam que a gente falava errado quando, na verdade, falava diferente. E bem melhor, eu arrisco dizer.
Quando um jovem deixa de dizer “aperreado”, “arretado”, “mangar”, “abestalhado”, "tabacudo", "arrudeia" não é só uma palavra que some. É um mundo que vai ficando mais estreito. É a raparigagem sendo empurrada pra fora da conversa. E sem raparigagem não há futuro que preste, convenhamos.
Mas nem tudo é lamento. Há sinais. Há lampejos. Um exemplo arretado foi o filme O Agente Secreto. Ali, Pernambuco falou do seu jeito, pensou com sua cadência, mostrou ao Brasil e ao mundo que nosso sotaque não limita - expande. Que nossa forma de se expressar é potência estética, política e cultural. Aquilo ali não foi só cinema. Foi afirmação.
Cabe também um elogio em voz alta, desses que a gente faz pra não deixar passar batido. Nas redes sociais, Malu Falangola - pernambucana que hoje pisa no Rio, mas nunca tirou Recife da língua - tem feito um trabalho bonito, quase militante, de devolver ao mundo nosso sotaque sem pedir licença. Com humor, leveza e uma inteligência afetiva danada, ela transforma expressões, cadências e jeitos de falar em cena cotidiana, dessas que a gente assiste sorrindo e pensando: “é isso, visse?”. E quando se junta a Raíssa Xavier, trazendo a Bahia no peito, e a Natália Régia, com o Ceará inteiro no riso, o Nordeste vira coro, vira roda, vira afirmação coletiva. Não é só conteúdo de internet, não. É resistência cultural em formato de vídeo curto. É dizer, em alto e bom som, que a gente pode ir longe sem deixar o sotaque na porta. Porque quem leva a própria fala, leva também sua história.
Talvez a saída esteja justamente aí: apoiar, divulgar, consumir e defender as produções culturais da nossa terra. Ler nossos escritores, ouvir nossos músicos, ver nossos filmes, prestigiar nosso teatro, a ciranda, o coco, o maracatu, o repente, o brega, o mangue. Ensinar às crianças que falar como a gente fala é motivo de orgulho, não de vergonha. Que sotaque não se perde: se cultiva.
Fica o questionamento no ar, feito cheiro de chuva antes do toró: estamos deixando nossa fala morrer por descuido ou por medo de parecer quem somos? E mais importante ainda: você raparigou hoje?
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