Passei esses dias revendo o blog, relendo umas crônicas antigas e cheguei a uma conclusão: às vezes tenho a impressão de que passei os últimos anos escrevendo bilhetes para o tempo. Não cartas solenes, dessas que a gente guarda numa pasta, numa gaveta ou caixa qualquer. Bilhetes mesmo: rápidos, meio apressados, às vezes escritos na mesa de um bar, às vezes até dirigindo, às vezes no silêncio da madrugada, quando o mundo diminui de tamanho e a consciência cresce.
De vez em
quando volto a eles. Não por nostalgia, mas por curiosidade. Como quem encontra fotografias antigas e tenta
adivinhar o que aquele sujeito da foto estava pensando.
E ali estou
eu, em várias versões.
O menino que queria ser astronauta, piloto, jogador de futebol e, se sobrasse
tempo, presidente da República.
O jovem que acreditava que política se fazia com saliva, exemplo e um certo
excesso de esperança.
O homem que escreveu, tantas vezes, sobre sonhos - como quem repete uma palavra
para não esquecê-la.
Confesso: às
vezes leio aqueles textos e fico me perguntando se fui apenas um sonhador
profissional.
Porque a
vida, como sabemos, não é exatamente gentil com os sonhadores. Ela cobra juros
altos. Vem com boletos, contradições e uns tropeços que não estavam no roteiro.
Há momentos em que a gente olha para trás e faz aquela contabilidade meio torta
da existência:
• O
que foi que eu realizei de verdade?
• O que saiu do
papel?
• O
que ficou só na conversa boa de madrugada?
Aí bate uma
dúvida que é quase filosófica, mas também um pouco caseira: será que tudo
isso foi construção ou só poesia?
Mas a verdade
é que, olhando com calma, percebo que a vida nunca foi um grande monumento de
concreto. Ela é mais parecida com uma obra em andamento, dessas que vivem
cercadas de andaimes. Tem parte pronta, tem parte improvisada e tem pedaço que
a gente jura que estava terminado… até descobrir que precisava refazer.
E talvez
esteja aí o sentido dessas crônicas todas.
Elas nunca
foram apenas textos.
Foram pistas, roteiros.
Em cada uma
delas há um pedaço do que eu quis ser: alguém que acreditasse na política sem
perder a ternura, que defendesse causas sem perder o humor, que sonhasse grande
sem esquecer das pequenas coisas — dos amigos, das conversas, dos filhos, da
vida simples que insiste em caber dentro da vida pública.
Se fui
bem-sucedido nisso tudo?
Não sei.
Mas uma coisa
eu sei: não fui desonesto com os meus sonhos.
Pode parecer
pouco, mas não é. Num mundo em que tanta gente troca sonho por conveniência,
manter alguma fidelidade ao que se acredita já é quase um ato de resistência.
Claro,
algumas utopias ficaram pelo caminho. Outras mudaram de roupa. Algumas,
confesso, envelheceram pior do que eu. Mas há uma que continua firme, teimosa,
plantada no meio do peito como uma árvore antiga: a ideia de que vale a pena
tentar melhorar o mundo. Nem que seja um pedacinho dele.
Talvez seja
isso que esses textos revelam.
Não um herói,
nem um vencedor de grandes batalhas.
Mas um sujeito persistente, insistente
Um homem que
envelheceu um pouco, aprendeu algumas coisas e perdeu outras… mas que ainda
carrega dentro de si aquele menino que acreditava que política podia ser coisa
séria e generosa ao mesmo tempo.
E pensando
bem, talvez esse seja o verdadeiro norte.
Não abandonar
o sonho, mas amadurecer o sonho.
Trocar a ansiedade da chegada pela paciência da caminhada.
Entender que mudar o mundo raramente acontece de uma vez; às vezes acontece
devagar, na soma de gestos, escolhas e exemplos.
No fundo,
acho que escrevi todos esses anos para lembrar a mim mesmo de uma coisa
simples:
O que importa
é o sonho.
Mas, se
possível, que ele venha acompanhado de coragem para transformá-lo em caminho.
E enquanto
houver caminho, sigo andando.
Com mais rugas, talvez.
Com um pouco mais de juízo (embora não muito).
Mas ainda com
aquele velho hábito de olhar para o horizonte e pensar, meio sério, meio rindo
de mim mesmo: Vai que dá…
Quem sonha, vive! Acredito que muitos dos seus sonhos já se realizaram, ter filhos lindos, ser um cidadão do bem, trabalhar com que ama, viver novas experiências, … vamos focar na publicação desse livro !!!
ResponderExcluir