A distância que nos revela...

Tem uma coisa curiosa em ver a Terra de longe: a gente some. Esse foi o sentimento que me veio ao ver a foto da Terra, tirada pelos cosmonaut@s da Artemis.

Nas fotos recentes da missão Artemis, esse “pôr da Terra” surgindo atrás da Lua parece quase uma delicadeza do universo. Um gesto silencioso. E, ao mesmo tempo, um lembrete meio incômodo, tudo o que a gente acha enorme: nossas brigas, nossas certezas, nossos medos - cabe ali, num ponto azul que mal preenche o quadro.

Fiquei olhando aquilo e pensei: somos passageiros de uma nave que não sabemos pilotar direito, discutindo no corredor enquanto a janela revela o infinito.

E aí me veio a memória de Caetano e sua história, em 1968, quando se encontrava preso na cela de uma cadeia, viu “pela primeira vez as tais fotografias”, tiradas à distância, pelos astronautas do voo espacial Apollo 8.

Ele, preso, numa cela mínima, vendo pela primeira vez a Terra inteira. A ironia é tão forte que chega a ser poética demais para ser só coincidência: quanto mais fechado estava, mais amplo foi o que viu. Enquanto nós, soltos, às vezes seguimos cegos dentro das nossas próprias pequenas grades.

E quando Caetano escreveu “Terra”, não era só sobre o planeta. Era sobre pertencimento. Sobre amor. Sobre liberdade sendo imaginada antes de ser vivida.

Hoje, vendo essas novas imagens, me sinto meio assim também: pequeno, mas conectado. Perdido, mas dentro de algo maior que faz sentido ou que, pelo menos, pede que a gente invente um sentido juntos.

Talvez o mais bonito dessas fotos não seja a Terra em si, mas o que elas arrancam da gente: uma vontade de cuidar melhor desse lugar e, principalmente, uns dos outros.

Porque, no fim das contas, é só isso.

Uma viagem longa.
Um planeta frágil.
E nós, tentando aprender a merecer a vista.

Comentários