Tem dias em que acordo com a nítida sensação de que o tempo acordou antes de mim: tomou café, leu o jornal (já indicativo de meu tempo?) e já está ali, sentado na cadeira, me olhando com aquele ar de quem sabe mais do que diz. Eu ainda bocejando, e ele já cobrando.
Pra não fugir do que sou, volto aqui nessa nossa roda de conversa pra falar dele. Esse sujeito invisível e onipresente, quase um político experiente: não aparece tanto, mas decide tudo.
Ao longo desses anos (e bote “tempo” nisso… rsrs), tenho insistido nesse tema como quem cutuca uma ferida e, ao mesmo tempo, faz carinho nela. Porque o tempo é assim: dói e consola na mesma medida. A gente não vê, mas sente. E como sente.
Já percebi que, na minha vida, ele nunca teve uma cara só. Teve dias em que foi esperança — aquele sopro de “calma, vai dar certo”. Em outros, foi medo — um relógio correndo mais rápido que minhas certezas. Às vezes foi estímulo, empurrando a gente pra frente sem nem pedir licença. Em muitos momentos, virou saudade...e aí pesa, viu? Pesa como tarde de domingo.
E tem a lembrança… essa forma delicada que o tempo inventou de não ir embora completamente.
O curioso é que passamos a vida tentando negociar com ele. Quando estamos felizes: “fica mais um pouco”. Quando não estamos: “passa logo”. Parece até relação mal resolvida. E talvez seja. Porque, no fundo, ninguém nunca conseguiu governar o tempo. No máximo, aprende a conviver com ele, como se convive com um vizinho barulhento: com resignação, humor e, vez ou outra, uma conversa atravessada.
Mas ele ensina. Ah, ensina. Mesmo quando não queremos assistir à aula.
Ensina que tudo passa - inclusive nós. Ensina que alguns instantes viram eternidade sem avisar. Ensina que pessoas continuam existindo dentro da gente, mesmo quando já não cabem mais no mundo.
E aí, de repente, me pego fazendo aquelas perguntas simples e perigosas: o que já fiz? O que ainda falta? Tenho tempo? Vai dar tempo?
A resposta, como quase tudo que importa, não vem pronta. Vem em pedaços, ao longo dos dias, escondida nas pequenas escolhas, nos encontros, nos silêncios.
Talvez o tempo não esteja interessado nas nossas respostas, mas nas nossas tentativas.
E eu sigo - meio atrasado, meio adiantado, mas sempre em movimento - tentando aprender, ensinar, realizar… e, sobretudo, eternizar. Porque, no fim das contas, o que a gente chama de vida talvez seja só isso: uma coleção de instantes que conseguiram resistir ao tempo dentro de alguém.
Se vai dar tempo, eu não sei.
Mas enquanto houver tempo… que seja vivido. Mesmo com atraso. Mesmo rindo de nervoso. Mesmo sem entender direito.
Porque, no fim, o tempo até pode passar por nós.
Mas a gente também passa por ele.
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