E como seria se não tivesse acontecido...

 Lembranças, memórias e discussão sobre o 31 de março sempre voltam. Não como lembrança distante, mas como um vento que insiste, daqueles que atravessam a casa e mexem com o que o tempo tentou guardou.

Hoje, 62 anos depois, não consigo olhar essa data apenas como um marco. Marco negativo, lógico. É mais como uma encruzilhada. Um país que poderia ter seguido por um caminho e escolheu, ou foi empurrado, para outro.

31 de março não é só uma data. É uma interrupção.

Interromperam um país em movimento, interromperam mais do que um governo. Interromperam um processo. Um país em construção, cheio de conflitos, sim - mas vivo, pulsando, errando, aprendendo e seguindo. E quando tiraram isso, não tiraram só um governo. Tiraram o tempo. E o tempo, quando sequestrado, deixa marcas profundas e cobra juros altos: trouxe medo para às ruas do país.

Enquanto esse medo ocupava as ruas, a coragem ocupava os silêncios, a resistência e a criatividade. Alguns cantaram. Outros escreveram. Todos resistiram. Gente comum fazendo o extraordinário de não aceitar o silêncio como destino. Mas o preço ficou. Ficou no medo que ainda educa. No silêncio que ainda limita. Numa desigualdade que aprendeu a se naturalizar.

E então a pergunta permanece, como um eco que não cansa: E como seria se não tivesse acontecido?

Talvez um país menos desigual. Talvez mais justo. Talvez ainda imperfeito - mas livre para errar por conta própria. Porque a liberdade não garante acerto. Mas a ausência dela garante atraso.

O que foi interrompido não era perfeito. Mas era um caminho.

E imaginar esse caminho hoje não é saudade - é escolha. É lembrar que o futuro ainda está em disputa. E precisamos nos manter sempre em alerta.

Porque, no fim, o que importa é o sonho.

E desistir dele… isso sim seria o verdadeiro golpe. 










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