...só o essencial fica


Tem uma idade em que a gente deixa de contar os anos como quem soma vitórias e passa a contá-los como quem mede o tempo com cuidado, quase com ternura.

Cheguei aos 52 outonos assim: mais lento por fora, mais apressado por dentro.

Não foi agora, é verdade. Desde os 40, que alguns aniversários me visitam com esse silêncio cheio de perguntas. Não chegam com festa, chegam com memória. E memória, você sabe, é uma espécie de maré: às vezes vem mansa, às vezes arrasta tudo.

Lembrei de gente. De histórias. De caminhos que escolhi e de outros que me escolheram. Lembrei do que fui e, principalmente, do que fui deixando de ser. Há um certo desapego que só o tempo ensina,  e não é frieza, é lucidez.

Outro dia, reli Rubem Alves, naquele seu jeito de transformar o simples em essencial, e voltei à imagem da bacia de jabuticabas. Confesso: por muito tempo, eu fui aquele menino distraído, comendo a vida sem pensar na escassez. Havia sempre outra reunião, outro projeto, outra disputa, outro amanhã.

Mas chega uma hora, e talvez os 52 tenham carimbo nisso, em que a gente olha a bacia e entende. Não com tristeza, mas com consciência. E aí já não dá mais para desperdiçar tempo com vaidades que não alimentam, com conversas que não constroem, com disputas que não transformam.

A política, que eu sempre tratei como coisa séria — porque é —, também passa por esse crivo do tempo. Já não me interessam os rótulos, os egos inflados, os jogos pequenos. A alma, como disse Rubem, tem pressa. E a minha não tem mais paciência para o que não é verdade.

Quero gente de verdade. Das que erram e riem. Das que sonham sem precisar humilhar ninguém. Das que entendem que a vida não é palco permanente, mas travessia. Gente que não se acha a escolhida antes da hora, mas também não foge da responsabilidade de construir o agora.

Aos 52, percebo que o essencial não é pouco. É tudo.

E talvez o grande aprendizado seja esse: não é sobre ter menos tempo, é sobre finalmente saber com quem e com o que vale a pena gastá-lo.

Se antes eu corria para caber no mundo, hoje escolho com calma o que cabe em mim.

E, como quem segura as últimas jabuticabas, não para guardá-las, mas para saboreá-las melhor, sigo. Com mais memória do que pressa. Com mais verdade do que aparência. E com um certo tipo de esperança, dessas teimosas, que insiste em dizer, baixinho: o que importa é o sonho…

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