Recife num outro tom


No meio das minhas andadas pelo Centro do Recife, entre um desvio de ambulante, um quase atropelo de bicicleta e o exercício de atravessar a Conde da Boa Vista sem perder a dignidade, percebi uma mania que adquiri nos últimos tempos.

Aliás, mania é uma palavra bonita pra pequenas fugas organizadas.

Todo mundo tem as suas. Tem gente que coleciona caneca, tem quem assista vídeo de receita às duas da manhã sem nunca cozinhar nada. Eu desenvolvi o hábito de caminhar ouvindo música. Às vezes um podcast, é verdade. Mas, ultimamente, a música clássica tem vencido o debate interno.

E acontece uma coisa curiosa.

O Centro do Recife vira cinema mudo.

Juro.

Imaginem a cidade sem o som das buzinas, sem o vendedor anunciando promoção de capa de celular, sem o motorista do ônibus exercitando seu talento em buzina sinfônica. Mudo. Aí entra Bach. Ou Chopin. Ou Beethoven. Dependendo da coragem emocional do dia.

E pronto: muda tudo.

O homem correndo atrás do ônibus parece personagem de drama europeu. A moça atravessando a rua olhando o celular ganha uma melancolia existencial digna de filme francês. Até o camarada discutindo no meio da calçada parece coreografado quando Mozart resolve brincar no fundo dos meus ouvidos.

Confesso que às vezes me pego observando as pessoas e imaginando suas histórias. O que estão pensando? O que estão carregando? Quem está apaixonado? Quem está cansado? Quem só queria chegar em casa e tirar o sapato sem precisar conversar com ninguém?

A música desacelera meus pensamentos. E isso, hoje em dia, é quase um ato revolucionário.

Porque a cidade corre. A política corre. As notificações correm. E nós vamos correndo junto, como se a vida fosse uma fila invisível onde ninguém sabe exatamente o que está esperando, mas todo mundo tem medo de perder a vez.

Talvez por isso eu goste tanto dessa estranha mistura entre Recife e música clássica. É como se, por alguns minutos, o cotidiano ganhasse legenda poética. Como se a pressa humana pudesse ser observada com um pouco mais de ternura.

Ou talvez eu esteja apenas romantizando o fato de caminhar suado no calor do Recife ouvindo Beethoven como se fosse um intelectual europeu perdido na Rua Nova.

O que também é uma possibilidade real.

Queria continuar escrevendo sobre isso. Tinha até começado a imaginar qual trilha sonora combinaria com o camelô do relógio gigante na Guararapes. Mas acabei de receber uma ligação.

A música parou.

Vou ter que voltar à realidade. 

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