Tem dias que não passam - ficam

O 1º de maio é um deles. Chega como quem bate na porta com duas mãos: numa, o peso do mundo real; na outra, uma lembrança que ainda acelera dentro da gente. 

Cresci aprendendo que política e Fórmula 1 não brigavam lá em casa. Talvez porque as duas sempre falaram, do seu jeito, sobre escolhas e sobre o preço delas.

De um lado, o chão. A luta de quem levanta cedo, pega ônibus cheio, inventa coragem onde falta quase tudo. Direito não é gentileza, nunca foi. É conquista arrancada do tempo, da injustiça e do silêncio. (Taí a luta do 6 x 1, pra provar...)

Por isso repito, como quem reza sem altar: a política é coisa de gente séria sim. Porque ela encosta na vida de verdade, sem pedir licença.

Do outro lado, a memória. Um domingo que não terminou direito. A curva, o impacto, o silêncio que veio depois. E com ele, a sensação de que o Brasil perdeu mais do que um piloto. 

Perdeu um espelho raro de si mesmo. Num tempo em que a gente duvidava do próprio valor, ele aparecia e dizia, sem falar: dá pra ser grande.

E era isso que me pegava. Não era só a velocidade. Era a ética em movimento. A ideia de que, mesmo na pista molhada da vida, ainda dá pra fazer direito. Ainda dá pra honrar o caminho.

Talvez seja por isso que esse dia doa e ilumine ao mesmo tempo. Porque junta o que somos com o que sonhamos ser. O suor com a esperança. A luta com a possibilidade.

E no meio disso tudo, sigo aqui - meio chão, meio céu - tentando não esquecer o essencial: não basta correr. É preciso saber por quê.

No fim, apesar de tudo, insisto baixinho, como quem protege uma chama do vento: o que importa é o sonho. Mesmo quando ele chega acompanhado de saudade. 

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