"Versões de mim"




Tem dias em que tenho certeza de que sou uma reunião de condomínio das minhas próprias versões. Basta um café mais forte, uma música antiga ou um reencontro na fila da padaria, e aparece uma versão minha perguntando: “e se?”.

Luiz Fernando Veríssimo entendeu isso antes de todo mundo. “Versões de Mim” parece crônica, mas é quase uma sessão espírita dos arrependimentos cotidianos — e do humor também. Porque até nossas tragédias imaginárias têm um certo ridículo.

Às vezes penso: e se eu tivesse continuado treinando no Paulistano? Talvez hoje eu desse entrevista falando sobre a conquista da Copa do Mundo, eu titular e Rivaldo no banco esperando uma chance. E o pior é que, em alguns dias de autoestima descontrolada, eu quase acredito.

Tem também a versão que foi morar em Brasília, como meu pai queria. Virou sujeito sério, desses que falam “arcabouço institucional” na padaria. Talvez tivesse menos boletos emocionais. Ou só boletos mais organizados.

E existe o publicitário em São Paulo: correndo entre “calls”, café gourmet e trânsito, mas ainda defendendo cuscuz como patrimônio da humanidade e explicando, indignado, que macaxeira não é aipim nem aqui nem em Marte.

Talvez vocês - três ou quatro leitor@s fiéis desse Diálogo de Roda existencial - também guardem suas versões esquecidas pela casa. A cantora que não foi.  dentista interrompida pelo medo. A mulher que quase ficou ou quase partiu. A gente carrega universos paralelos dentro do peito como quem guarda caixas antigas no maleiro: não usa mais, mas também não consegue jogar fora.

No fundo, Veríssimo antecipou o multiverso antes da Marvel. Cada escolha abre uma realidade possível. Cada “sim” enterra um “talvez”. E nenhuma versão parece plenamente feliz.  Na verdade a gente carrega pequenos universos paralelos dentro do peito como quem guarda caixas antigas nu armário: não usa mais, mas também não consegue jogar fora.

A realidade é que toda escolha vem com um pacote: ganho, perda e uma prestação eterna de dúvida parcelada em suaves pensamentos antes de dormir. A gente romantiza as estradas que não pegou, como se do outro lado da decisão existisse uma felicidade climatizada e sem boleto.

Talvez o segredo seja fazer as pazes com a versão que chegou até aqui: cheia de remendos, memórias, sonhos e teimosias. Porque, entre todas as possibilidades, ainda somos a única versão capaz de continuar tentando.


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