Conversa com Deus

Tenho desconfiado que Deus gosta de café frio.

Explico.

Toda vez que resolvo conversar com Ele, faço um café, sento na varanda (ou em qualquer canto da casa que ainda pareça um pouco meu) e começo a organizar o pensamento. Quando percebo, o café esfriou, a conversa tomou outro rumo e Deus continua ali, em absoluto silêncio, como quem domina a difícil arte de ouvir sem interromper.

E vou confessar: isso irrita um pouco.

A gente cresce aprendendo que Deus responde às orações. Mas ninguém explica que, às vezes, a resposta vem no mesmo ritmo de uma repartição pública numa sexta-feira à tarde. A senha anda, mas a impressão é de que o painel travou.

Tenho vontade de perguntar:
— Senhor... o senhor está aí?

Silêncio.

— Se estiver ocupado, eu espero.

Mais silêncio.

E eu sigo falando. Talvez porque, como cantou Chico em Roda Viva: "tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu". Faz tempo que caminho com essa estranha sensação de continuar vivo apenas por insistência. Não é tristeza exatamente. É como carregar a alma nas costas, procurando um banco qualquer onde ela possa descansar cinco minutos.

Chego diante de Deus sempre carregando uma mala. Daquelas antigas, de couro, que não têm rodinhas. Dentro dela não vão só os meus problemas. Vão as preocupações com quem amo, as dores que emprestei dos amigos, as aflições da família, as contas que insistem em vencer antes do salário, as perguntas que não encontro coragem de fazer em voz alta.

Vai também a saudade.

Ah, essa faz um peso danado.

Nos últimos tempos perdi pessoas que ajudaram a construir quem sou. Gente que parecia ter contrato vitalício com a minha história. Pessoas que eu imaginava encontrar daqui a vinte anos, contando as mesmas histórias, rindo das mesmas piadas sem graça e fingindo que ainda eram jovens.

De repente, partiram.

E a gente descobre que a morte não leva apenas quem vai. Ela rearruma os móveis da casa da memória. Nada fica exatamente onde estava.

Nessas horas começo a fazer aquele esporte em que sou campeão olímpico: revisar a vida.

"Em que esquina foi que entrei errado?"

Será que bastava ter escolhido outra rua? Outro emprego? Outro amor? Outra resposta? Outro silêncio?

Imagino Deus me olhando com um sorriso paciente, talvez pensando:

"Meu filho... você realmente acredita que conseguiria não errar?"

É uma boa pergunta.

Porque, olhando com calma, percebo que passei boa parte da vida tentando montar um quebra-cabeça enquanto Deus parecia mais interessado em me ensinar a conviver com peças faltando.

Confesso que, às vezes, tenho vergonha das minhas orações.

Chego sem grandes discursos. Sem palavras bonitas. Sem versículos decorados.

Tem dia que só digo:

"Senhor... hoje eu vim porque não sabia para onde mais ir."

E fico ali.

Acho curioso como a fé funciona.

Ela não elimina as dúvidas. Apenas impede que a gente desista da conversa.

No dia seguinte volto.

No outro também.

Mesmo quando parece que o céu entrou no modo silencioso.

Não peço fortuna. Acho até que Deus já percebeu que, se me desse muito dinheiro de uma vez, eu gastaria metade organizando a casa e a outra metade pagando boletos atrasados, o que, convenhamos, também tem um certo valor espiritual.

Também não peço milagres cinematográficos.

Peço sossego.

Peço que a vida encontre novamente um trilho menos acidentado.

Peço tempo para estar perto dos meus filhos, dos meus irmãos, da minha mãe, dos amigos que ainda insistem em dividir comigo a mesa, a conversa e as pequenas esperanças.

Peço força para continuar acreditando que a política é coisa de gente séria, justamente porque ainda acredito nas pessoas. Sei que parece uma teimosia. Talvez seja. Mas algumas teimosias são apenas sonhos que se recusam a envelhecer.

Antes de ir embora, sempre faço uma última pergunta.

Nunca pergunto quando tudo vai passar.

Também não peço que Deus retire o peso dos meus ombros.

Só peço que Ele cuide da única coisa que não posso perder: a esperança.

Porque descobri que ela é parecida com aquelas velas antigas que nossas avós acendiam quando faltava energia. Não iluminava a casa inteira.

Mas iluminava o suficiente para ninguém tropeçar no caminho.

Talvez Deus nunca tenha querido me dar todas as respostas.

Talvez Ele apenas esteja me ensinando que algumas conversas não existem para resolver a vida.

Existem para impedir que a alma desista dela.

E amanhã, se Deus quiser - e mesmo que Ele continue respondendo apenas com aquele silêncio cheio de mistério - eu volto.

Levo outro café.

Quem sabe, dessa vez, eu consiga bebê-lo ainda quente.

 

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