A aula que o tempo não apagou…

Há lugares que a gente deixa para trás, mas que nunca deixam a gente. A escola é um desses lugares.

Já se vão mais de quarenta anos desde que entrei na Academia Santa Joana, no Janga. Quarenta anos. Dizer assim parece exagero. Parece que estou falando da vida de outra pessoa. Mas basta fechar os olhos por um instante e ainda consigo ouvir o barulho do recreio, sentir o cheiro da cantina de Dona Lenira, lembrar dos jogos internos, das brincadeiras de menino, das conversas que pareciam não ter importância e que, hoje, percebo, ajudaram a construir quem eu sou.

Muito do que gosto. Muito do que penso. A maneira como me relaciono com as pessoas e com o mundo. A curiosidade, algumas teimosias, certas convicções, o gosto pela política, pela história, pela poesia, pela conversa comprida, pela amizade.

Tudo isso começou, de algum modo, naquela escola. Foi lá que descobri as primeiras coisas. A primeira paixão. A segunda. A terceira... porque ninguém disse que a infância e a adolescência precisavam obedecer a uma única paixão.

Foi lá que aconteceu a primeira briga — dessas que, na época, pareciam o fim do mundo e hoje caberiam numa gargalhada.

O primeiro concurso de poesia. A primeira eleição. A primeira festa. A primeira dança. O primeiro discurso, feito pra uma gincana.

Os jogos internos, que transformavam meninos comuns em atletas olímpicos durante algumas horas. As brincadeiras que só faziam sentido para nós. As amizades que pareciam eternas e que, mesmo quando a vida tratou de espalhá-las por outros caminhos, continuam guardadas em algum lugar bonito da memória.

Alguns amigos ficaram perto. Outros ficaram longe. Alguns eu reencontrei. Outros talvez nunca mais encontre. Mas todos ficaram em mim.

E havia os professores. Ou melhor: primeiro, as “tias”: Tia Musa. Tia Lene. Tia Nádia.

Depois veio a eterna quinta série - essa fronteira quase mitológica da nossa infância, quando nós, meninos, descobríamos que já não éramos mais crianças e, portanto, precisávamos abandonar o “tia” e aprender a chamar de professora e professor.

Vieram Glauco, Gilmar, César, Alex (jurou que eu iria chorar lágrimas de sangue na recuperação), Alexandrino (ganhou até música), Chico... E as “tias” Nira, Magali, Adriana, Jacira. Cada um deixou alguma coisa. Uma palavra. Uma bronca. Uma lição. Uma mania. Uma lembrança.

Porque professor não ensina apenas aquilo que está escrito no quadro. Às vezes ensina sem saber. Ensina pelo jeito de olhar. Pela maneira de tratar um aluno. Pela coragem de fazer uma pergunta diferente. Pela capacidade de enxergar naquele menino ou menina alguma coisa que ele próprio ainda não consegue enxergar.

E havia Nadir Nunes.

Não sei explicar exatamente quando aconteceu, mas criei por ela uma empatia, um respeito e um carinho enormes.

Talvez porque ela ensinasse História e Geografia, duas matérias que sempre amei. Talvez pelo seu posicionamento político, que eu admirava. Talvez pelo jeito de falar. Ou talvez - e hoje acho que sei - porque Nadir não se limitava a ensinar o conteúdo da prova.

Ela ia além. Falava da História, mas também falava da vida.

Falava de Geografia, mas também falava do mundo.

Falava do cotidiano, do respeito, das diferenças, das responsabilidades, do futuro.

Nadir ensinava que conhecimento não servia apenas para responder uma questão na prova. Servia para compreender o outro. Para entender a sociedade. Para perceber as injustiças. Para imaginar que o mundo poderia ser diferente. E talvez seja justamente por isso que ela tenha ficado tanto tempo dentro de mim.

Ontem recebi a notícia de sua partida.

E a notícia da morte de alguém que fez parte da nossa formação tem uma tristeza diferente. Porque a gente não perde apenas a pessoa, perde também a possibilidade de voltar. De sentar diante dela e dizer: “Professora, lembra de mim?”

De contar o que aconteceu depois. De mostrar quem aquele menino se tornou. De agradecer. E foi isso que mais me doeu: Eu queria ter tido mais momentos com Nadir. Queria ter dito a ela tudo isso.

Queria contar que aquelas aulas não ficaram naquela sala de aula. Que atravessaram o tempo. Que algumas daquelas conversas continuaram fazendo barulho dentro de mim durante esses mais de quarenta anos.

Queria dizer que tento ser um cidadão consciente das minhas responsabilidades. Que tento estar atento ao outro. Que ainda acredito na política como instrumento de transformação. Que ainda me incomodo com a injustiça. Que ainda acredito na solidariedade, na fraternidade, na possibilidade de construir um mundo melhor.

Nem sempre consigo, é verdade. Às vezes tropeço. Às vezes me perco. Às vezes sou tomado pelo desencanto. Mas continuo tentando.

E talvez seja essa a melhor forma de agradecer a quem nos ensinou. Não é apenas lembrar. É carregar adiante aquilo que recebemos.

Por isso, minha querida tia Nadir, onde quer que você esteja, espero que essa mensagem encontre algum caminho até você.

Quero que saiba que aquela sua maneira de ensinar ficou.

Ficou em mim.

E que, de alguma forma, tento honrar aquela professora que desenhou, pintou e deixou gravado em seus alunos um mundo mais justo, mais fraterno, mais solidário. Um mundo melhor.

A escola passou. O Janga mudou. Nós crescemos. Os cabelos branquearam pra uns, rarearam pra outros,  a barriga apareceu, a vida ficou mais séria do que gostaríamos e descobrimos que boleto não é matéria que se aprende na quinta série. 

Mas há um menino que continua andando pelos corredores da Academia Santa Joana: Às vezes ele corre. Às vezes joga bola. Às vezes briga. Às vezes se apaixona. Às vezes escreve, mais crônicas que  poesia.

E, de vez em quando, ele para diante de uma professora de História e Geografia para ouvir uma lição que só muitos anos depois consegue compreender.

Hoje, esse menino está aqui. E diante da saudade, só consegue dizer: Muito obrigado, tia Nadir.

Obrigado pelas aulas que estavam no currículo. E, principalmente, por todas aquelas que não estavam.

O que importa é o que fica. E você ficou.

 

Comentários

  1. Q lindo!!! Não podia ter descrito de forma melhor. Nossa eterna tia Nadir.

    ResponderExcluir
  2. Muito bom! Me trouxe nostalgia e boas lembranças de um tempo que ficou em nossas memórias e corações.

    ResponderExcluir
  3. Que lindo! Você realmente soube descrever como era a Santa Joana e tia Nadir😭😭😭😭

    ResponderExcluir
  4. Que lindo! Você realmente soube descrever como era a Santa Joana e tia Nadir😭😭😭😭

    ResponderExcluir
  5. É admirável a forma que você toca o coração das pessoas. Até mesmo quem não viveu aquela época se comove! 😍

    ResponderExcluir
  6. Passou um filme na minha cabeça, parecia que eu esta lá.
    Para sempre TIA NADIR...❤️

    ResponderExcluir
  7. Perfeito! Tia Nadir, professora incrível, lembro das excursões, das aulas, das conversas maravilhosas. Ela com certeza Eternamente presente em nós! Gratidão e muito amor por tudo Nadir Nunes ❤️

    ResponderExcluir

Postar um comentário